terça-feira, 8 de setembro de 2009

Menina

Quando ainda não é hora mas tudo o que se quer é partir.

Aqui não tem trilho para o trem, então vou esperar pra sempre. Não tenho mais o relógio de minha avó para saber a hora certa e nem minha mãe para me orientar. Não tenho lembrança de ter perdido a hora com mamãe ao meu lado: ela me acordava com um beijo na testa, preparava leite quente com açucar queimado e torradas, separava meu agasalho mais quente e se certificava que eu estava saindo ainda com cinco minutos de antecedência, para que eu não tivesse que correr e estragar os meus sapatos vermelhos.

Mamãe cumpria esta rotina religiosamente. Ela me disse ter gosto por datilografia, e por isso exerceu a profissão por anos. Eu já acho que mamãe nasceu mãe. É o que ela sabe fazer de melhor. Desde muito cedo. Antônio e Aurélio são meus irmãos mais velhos e nasceram bem antes de mim. Mamãe só conhecia o universo masculino antes de eu nascer. Sabia até engraxar os sapatos dos filhos. Ainda jovens eles foram embora. Antônio abriu um pequeno comércio, arrumou sua mala e foi ser gente grande, como ele mesmo dizia. Aurélio, muito  apegado ao irmão, foi junto para cuidar da contabilidade do negócio. Ele era muito bom com os números. Antônio dizia que se Aurélio não fosse com ele, iria acabar no caixa do único armazém da cidade. 

Sei que eles estão bem. Mamãe me dá notícias sempre que fala com eles. Eu nunca entendi muito sobre o negócio deles, mas sei que envolve muito papel e disciplina. Eles insistem em dizer que eu ainda sou criança para entender o universo adulto. Claro que eles não sabem que eu namoro o Carlinhos, irmão de um grande amigo deles. Deixa eles acharem que eu só gosto de brincar de boneca. Quando nos reunirmos no Natal, contarei o meu segredo depois de ganhar os presentes. Mamãe me disse que Antônio me dará um vestido xadrez. Sei que não vou gostar, mas isso eu não vou contar pra ninguém.

VS.


6 comentários:

Tiago F. Moralles disse...

"Eu já acho que mamãe nasceu mãe"
Disse aqui tudo sobre o texto.

Violet Scott disse...

querido! saudade de vc! viu?

Henrique Crespo disse...

Um conto como uma atmosfera aconchegante. Tem algo de íntimo nele.

Violet Scott disse...

Ah tem, Henrique. Talvez seja um pouco inocente também, não?

Henrique Crespo disse...

Traz uma inocência sim. Na medida em que tem um olhar inocente.

Violet Scott disse...

:)